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Quarta-feira, Outubro 10, 2007


Criança

- como você não sente o gosto?
- só sinto o outro.
- é que você não sabe onde procurar: ele fica bem aqui, olha(mostra a língua), entre esse e esse.

 

de rafael laete | 3:40 AM


VARIAÇÕES

Uma sensação que ninguém ainda botou nome, é aquela que nos ocorre quando não conseguimos mais lembrar, e queremos, quando é que algo começou, quando as coisas se tornaram familiares. Perder a esquisitice, o medo, é parecido com perder a inocência. Não é exatamente angústia, não é exatamente dúvida, mas é um tipo de angústia que parte da seguinte dúvida: será que fomos diferentes mesmo? E mais: o que foi que perdemos?

Claro que falo do lado mais sombrio de tudo isso. Quando a gente deixa a saudade tomar conta, primeiro ali no cantinho, quase que não incomoda, depois é aquele entulho no quarto inteiro. E isso se mistura com o calor que sempre tem aqui à tarde. Não dá mais pra descansar depois do almoço.

***

Meu analgésico é tentar acreditar, mesmo falhando miseravelmente, no momento em que a dor se dá, que nada existe na verdade, que tudo não passa de uma criação da minha cabeça infantil, e que todas as minhas lembranças são, provavelmente, justificativas, motivos bastante inteligentes, porém frágeis em igual medida, aliás, para crer que essa minha dúvida é simplesmente um breve e perigoso momento de insensatez.

Não adianta, mas é um ótimo exercício pra cabeça, quando a chuva te prega uma peça numa rua longe de casa.

***

Gosto de pensar que os outros têm medo ou vergonha de assumir uma certa qualidade da memória: a linguagem nos permite que nos “lembremos” de algo que de fato nunca existiu. Acontece nos sonhos, acontece nas artes, acontece quando eu conto qualquer história que não posso ter certeza se viveram. Isso quer dizer que, se podemos acreditar nos fantasmas que criamos com tanta força como acreditamos nos fantasmas que nos aparecem, podemos influir na nossa consciência da maneira que quisermos. Medo ou vergonha porque isso é o que chamam de loucura ou de mentira.
 

de rafael laete | 3:35 AM

Sábado, Julho 28, 2007


Escrevo aqui por causa do ócio, muito embora o ócio me pareça mais um motivo para NÃO escrever. O meu motivo reside justamente nessa contradição. Se eu quiser ter algo interessante pra falar, é melhor que eu faça algo da minha vida.
 

de rafael laete | 10:54 AM

Sábado, Junho 30, 2007


Família

Um dos meus grandes prazeres de menino pequeno, coisa que, aliás, nunca deixei de ser, era um almoço “especial”, apressado, de meio de semana mesmo. Minha família ainda era família, e almoçávamos juntos, de mesa posta. Mas às vezes o tempo não era suficiente, e o quebra-galho da vez, para não machucar o hábito, era sempre o que chamávamos de “cumê de mão”. “Cumê de mão”, acho, era mais a maneira como se comia do que o prato em si, mas como sempre coincidia ser o prato do dia com a forma, acabamos por dizer assim das duas coisas, como se fossem uma só.

Tratava-se, como ainda se pode tratar, de feijão puro, pouco tempero; charque da gorda, frita em cubinhos com muita cebola; um pedaço grande de jerimum, coentro o suficiente, e mais ainda que tudo, farinha de mandioca. A gente colocava, num pratão, primeiro o feijão, depois o jerimum bem mole e o coentro, misturava tudo. Depois vinha a charque com a cebola, e o óleo também (por que não o óleo da frigideira?), e depois farinha, até inchar. O prato ficava no meio da mesa, cada um ia fazendo bolinhos com a mão e comendo. Embora seja gostoso mesmo, tenho certeza de que não é esse o motivo para me lembrar como se fosse a coisa mais gostosa do mundo. Não tem motivo. Provavelmente era a força do costume, ou o carinho que fazia minha mãe às vezes me dar os bolinhos na boca, ou a conversa fiada, meio que para provocar a cozinheira do dia, meio que para justificar aquela barbárie toda, entrecortada com “muito bom!” ou “tá é gostoso...”, não dá pra ter certeza, não.

Hoje em dia, embora ainda menino pequeno, é difícil não comer de garfo e faca, porque só quem é família não olha estranho pra gente. Ah, é, eu acho que é isso.
 

de rafael laete | 12:02 AM

Sexta-feira, Junho 01, 2007


De tanto arrependimento, acabei por amar a chuva. Gostaria de abraçá-la, para cantar palavras boas para ela, e algumas desculpas. Gostaria de ter brincado na chuva quando eu era criança. Mas eu tinha uma pobreza de gente, digna de gente grande, e muita riqueza de cabeças, ainda mais que a maioria das crianças, e isso me impediu de aproveitar um dos maiores prazeres da vida. Quer dizer, é assim que sinto, pois não posso mais saber. É dessas coisas que as circunstâncias nos tornam alheias, só para que pareçam mais gostosas porque não as experimentamos. Então, como das coisas a mordida só traga uma decepção morna, como, aliás, me parecem todos os prazeres, percebo, um pouco assustado, que talvez tenha sido mais feliz assim. E, sem dúvida, brinquei na chuva, só que não tinha consciência disso, de maneira que não pude trazer pelo resto da minha vida esse acontecimento como uma experiência isolada, dessas que se tiram lições, mas como um simples acidente.

Como em muitas tardes daquela casa, sentei num dos galhos da pitangueira. Não sei se existem mesmo dessas pitangueiras fortes o suficiente, ou se era eu leve demais ainda, mas acontece que essa em particular assim era, e bastava, de tal forma que descansava ali sem medo. Era meu refúgio, meu lugar preferido. Sentava ali e só. Não lia, não conversava. Me desligava do mundo. Entre um pensamento perdido e outro, estendi uma mão para uma pitanga recém-descoberta, de relance, graças ao contraste do vermelho com o verde, coisa que, aliás, me deixou muito perdido, muito menor, pois, nesse exato momento da descoberta, me pareceu impossível que não pudesse tê-la notado antes, imediatamente, se não fosse pela luz, que fosse pelo cheiro. Fiquei quase triste. Mas a mão voltou, e eu esqueci, na primeira mordida, todas essas preocupações, que eram as maiores que tinha naquela época. O mundo de repente parecia tão doce que só pude encarar aquela pequena esfera vermelha como um presente muito mal-merecido. Foi quando começou a chover.

Não aconteceu nada de especial. Nada aconteceu, de fato. Mas, se eu me lembro desse dia, é que me impressionou de tal maneira a proteção inútil das folhas, as gotas brincando no meu pixaim, o cheiro de terra que me embriagava, o gosto agri-doce da pitanga, e, ainda mais, essa sensação, essa sensação que nunca mais senti, de que não havia nada melhor para fazer.
 

de rafael laete | 11:38 AM


terça-feira, 29 de maio de 2007

Passo grande parte do dia conversando com eu. Não encontrei ainda ninguém com quem compartilhasse tantos interesses e motivos como compartilho com eu, além de uma conversa leve, sincera e inteligente de verdade. Só ainda não consentimos a respeito de nós mesmos.
 

de rafael laete | 11:20 AM

Sábado, Março 17, 2007


eu sou uma pessoa que sofre nos limites da poesia, como, aliás, há de se ver, todo mundo sofre, mas sem ser chamado de poeta. isso é muito frustrante. então, orgulhoso que sou, tenho de ter uma teoria a mais: poeta não é de fato aquele que escreve, mas o que vive poesia a cada momento. não há nada de romântico nessa afirmativa. está muito claro para mim que não é difícil para ninguém ser poeta nesses termos. ser poeta é, aliás, uma obrigação, é da ordem das necessidades, como é comer três vezes por dia, como é respirar. essa é a necessidade de dar sentido pras outras.
 

de rafael laete | 12:58 AM

Segunda-feira, Outubro 16, 2006


Amor é sempre muito pouco, pois é a única das palavras que não é dúvida.
 

de rafael laete | 10:43 AM

Terça-feira, Outubro 03, 2006


O Amor

Eu fumo há tanto tempo que já não me é mais possível ter certeza se as sensações que eu tenho quando fumo tinha antes de começar fumar. Não posso mais saber se algum dia antes eu experimentei algo parecido com a vontade de fumar, se era vontade de alguma outra coisa. Também não posso mais saber se o que me deixa nervoso é a falta do cigarro ou outra falta qualquer outra coisa.
 

de rafael laete | 10:13 PM

Sexta-feira, Junho 30, 2006


Eu tenho um problema seríssimo: me dá de vez em quando uma vontade incontornável de estar perto das pessoas. De tocá-las, de olhar, de ouvir, de falar qualquer nulidade, de ver as nuvens passando, de ficar calado. Dá vontade. O problema não é esse. É que então eu me ponho a procurar alguém com quem eu possa ficar fazendo nada durante algum tempo, simplesmente sendo gente. Normalmente, as pessoas com quem queria estar estão inacessíveis. É quando eu percebo que são poucas as pessoas que realmente valem a vontade de fazer nada.
 

de rafael laete | 7:55 PM


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